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TORTURA NA ABORDAGEM

“Colocaram sacola na minha cabeça e pegaram o cabo de rodo”, diz preso que denunciou abuso sexual de PMs

Vítima relatou ao 24 Horas MT que policiais invadiram sua casa, cometeram abuso na frente da família e ameaçaram matá-lo se denunciasse; PM abriu procedimento administrativo e promete apurar “com o máximo rigor”

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O homem preso por tráfico de drogas em Denise, a 209 quilômetros de Cuiabá, que denunciou ter sofrido abuso sexual durante uma abordagem da Polícia Militar, veio à capital nesta sexta-feira (29) para prestar depoimento à Corregedoria da PM. Após o depoimento, concedeu entrevista exclusiva ao repórter Vinícius Ferreira, do 24 Horas MT.

Ele relatou detalhes do que aconteceu na última sexta-feira (22) e disse que recebeu ameaças de morte caso fosse em frente com a denúncia. Mesmo assim, decidiu falar.

“O que eles fizeram comigo não foi certo”, afirmou ele ao 24 Horas MT.

A identidade do entrevistado não será divulgada por causa do segredo de Justiça decretado sobre o processo. Ele foi solto no sábado (23), durante a audiência de custódia. O caso já foi encaminhado à Justiça Militar de Mato Grosso para apuração.

Policiais teriam entrado sem avisar

Segundo o homem, tudo começou quando três policiais da Força Tática invadiram a residência sem qualquer comunicação prévia. Ele estava dentro de casa com a mulher e os filhos.

“Eu estava olhando a minha mulher fazer comida e estava com a minha criança no colo”, contou. “Escutei o barulho do portão abrindo. Na hora que fui ver o que estava acontecendo, os três policiais já tinham invadido.”

Conforme o relato, sua mulher chegou a questionar se os agentes tinham mandado judicial. A resposta foi imediata. “Na hora que ela terminou de falar, o sargento pegou e já tirou ela de dentro de casa. Botou ela para o quintal.”

Em seguida, os policiais levaram o homem para o quarto. Ele afirma que mostrou voluntariamente a droga que tinha — segundo ele, para uso próprio de maconha e pasta base. Porém, os agentes queriam mais.

Abuso na frente da família

Ainda no quarto, os policiais teriam começado as agressões. Conforme o relato, os agentes exigiam que ele informasse onde havia mais drogas e que desbloqueasse o celular. Ele se recusou, alegando que havia imagens pessoais da esposa no aparelho.

“Começaram a me agredir. Colocaram o saco na minha cabeça”, relatou. “Pegaram o cabo de rodo e me colocaram ali. E na hora ali a situação foi feita.”

Foi nesse momento, segundo ele, que ocorreu o abuso sexual com o cabo de rodo — fato confirmado posteriormente pelo laudo da POLITEC, que identificou fissura anal, edema e fragmentos de madeira na região. “O que eles fizeram comigo foi tortura”, afirmou.

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O filho do homem presenciou parte das agressões. “Meu filhinho ficou em choque”, disse, visivelmente abalado.

Agressões continuaram na delegacia

Após a abordagem na residência, os policiais levaram o homem até a delegacia. Porém, segundo ele, as agressões não pararam por aí.

“Levaram eu para lá e continuaram a fazer agressão”, afirmou. “Começaram a me agredir, torcendo o meu dedo, querendo que eu desbloqueasse o celular.”

As agressões só cessaram quando, segundo ele, um familiar chegou ao local. “Eu gritei para eles que ela tinha chegado. Aí pronto, eles pararam.”

O Boletim de Ocorrência foi registrado na delegacia. Ele ficou preso até o dia seguinte, quando foi liberado durante a audiência de custódia. Depois disso, voltou para casa.

Laudo confirma as lesões

O exame de corpo de delito foi requisitado pelo delegado titular de Barra do Bugres, Fernando Albuquerque Marques, assim que tomou conhecimento das alegações. O procedimento é padrão em casos com relato de agressão durante condução policial. O delegado não comentou o mérito da investigação por causa do segredo de Justiça.

O laudo, assinado pela perita médica-legista Mariana Sansão Gouveia, da Gerência de Medicina Legal de Tangará da Serra, confirmou as lesões relatadas. O documento descreve edema, fissura anal e fragmentos de madeira na região examinada. A perita concluiu que os achados são compatíveis com a introdução de objeto na região anal e que o cabo de vassoura mencionado pelo preso pode ser compatível com as lesões encontradas.

Além das marcas na região anal, o laudo registrou escoriações recentes em diversas partes do corpo. Foram constatadas quatro escoriações hiperemiadas alongadas e paralelas no terço inferior do antebraço direito, com aumento de volume discreto. Também foram registradas duas escoriações no punho medial esquerdo, duas no punho posterior-lateral esquerdo e duas escoriações hiperemiadas com aumento de volume discreto no punho posterior direito. O documento ainda aponta uma escoriação no dorso esquerdo, três na região ilíaca esquerda, três na região ilíaca direita, duas na região glútea esquerda e quatro na região glútea direita.

Todas as lesões foram classificadas como recentes e provocadas por instrumento contundente. Ao responder aos quesitos oficiais, a perita confirmou que houve ofensa à integridade corporal e que a lesão foi produzida por meio cruel. O laudo foi lavrado em 23 de maio de 2026.

Ameaça de morte

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Mesmo com o processo em andamento, o homem disse temer pela vida. Segundo ele, os próprios policiais fizeram uma advertência clara.

“Eles falaram que se eu denunciasse iam me matar”, revelou.

Mesmo assim, decidiu seguir com a denúncia. “Independente de eu estar errado, eles tinham que ir lá e me prender. Não fazer o que fizeram comigo.”

Ainda de acordo com ele, não é a primeira vez que os mesmos policiais entram na sua casa. “Três vezes já invadiram a minha casa”, afirmou.

PM abre procedimento e promete rigor

A Polícia Militar de Mato Grosso informou que já abriu um procedimento administrativo para investigar a denúncia. A apuração ficará a cargo da 22ª Companhia Independente de Polícia Militar de Força Tática.

Em nota, a corporação afirmou que o caso será apurado “com o máximo rigor” e que “não coaduna com abuso de autoridade e nenhum tipo de crime cometido por parte de seus integrantes”.

No entanto, a PM não informou quantos policiais participaram da ocorrência. Também não confirmou se os agentes envolvidos foram afastados das funções operacionais durante as investigações.

A prisão por tráfico

O homem foi detido durante a Operação CGFRON — Brasil Contra o Crime Organizado — Fronteiras, coordenada pelo 7º Comando Regional da Polícia Militar de Mato Grosso. Conforme o boletim de ocorrência, guarnições receberam informações de inteligência indicando que o suspeito coordenava a distribuição de drogas no endereço e teria ligação com a facção Comando Vermelho.

Ao perceber a aproximação dos policiais, o suspeito tentou fugir, mas foi abordado. Durante a busca pessoal, os militares encontraram três pinos de substância análoga à cocaína, cinco porções de maconha e R$ 10 em espécie no bolso da bermuda. No interior do quarto, localizaram mais porções de drogas, uma balança de precisão e um celular que, segundo o próprio preso, era usado no tráfico.

Segundo o boletim, o suspeito resistiu fisicamente ao receber voz de prisão, o que tornou necessário o uso moderado de força para contê-lo.

Caso vai para a Justiça Militar

Por envolver policiais militares estaduais em atividade funcional, o caso será investigado por meio de Inquérito Policial Militar (IPM). A apuração ficará sob competência da Justiça Militar de Mato Grosso. O processo tramita sob absoluto segredo de Justiça.

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