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CHRISTIANE INDAIÁ

Cadê a utopia que estava aqui?

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Caro leitor,

Em um mundo que se apresenta cada vez mais instável, caro e imprevisível, a vida adulta parece mais como peso do que como possibilidade, e muitos jovens já não conseguem se projetar lá na frente.

Durante muito tempo, aprendemos que estudar, trabalhar e se esforçar nos aproximaria de uma certa ideia de autonomia: ter uma profissão, uma casa, um carro, construir uma família, conquistar independência. Hoje, essas coisas continuam sendo possíveis, mas já não parecem igualmente acessíveis para todos.

O mercado de trabalho se transforma rapidamente, a tecnologia redefine profissões, o custo de vida aumenta e a crise climática acrescenta uma incerteza que não existia da mesma maneira para outras gerações.

Nesse contexto, há muitas perguntas sem respostas e muitos cenários em construção.

A educadora e escritora Carolina Delboni, especialista em comportamento adolescente, concedeu uma entrevista à jornalista Andreia Sadi, no canal GloboNews, e a fala dela me remeteu aos dados da pesquisa do IBGE, publicada em abril deste ano. A pesquisa trata da saúde mental e emocional de jovens entre 13 e 17 anos, matriculados nas redes pública e privada no Brasil.

Naquele mesmo mês, publiquei um texto que trazia reflexões sobre os dados revelados na pesquisa, pois os números escancaravam uma tristeza, nem sempre visível, mas constantemente presente na vida dos adolescentes e, ainda, uma falta de entusiasmo pelo futuro.

Penso que seja esperado, até normal, incentivar e motivar nossos filhos e, no meu caso, alunos também. Mas que tristeza é essa que atravessa essa geração? Por que ela tem tanta dificuldade de imaginar o futuro?

Como professora e mãe, eu testemunho um descaso e um desânimo por quase tudo! Fico me perguntando: na minha época era assim também e eu não me lembro? Ou será que tínhamos mesmo mais entusiasmo pelas coisas?

Por que uma geração com tantos recursos e possibilidades pode ser tão triste, como apontam os estudos e pesquisas?

Sonhar com o futuro é poder se enxergar nele. É imaginar-se trabalhando em algo de que goste, morando em algum lugar que se deseja, construindo uma vida que faça sentido. É acreditar que existe um amanhã que vale a pena alcançar.

Eu tenho muitos alunos que se dedicam aos esportes e acho isso muito legal. Outro dia, durante uma aula, eu tentava incentivá-los a estudar inglês com mais afinco e determinação.

Enquanto dizia que eles precisariam do idioma para jogar em outros países, eu percebi que muitos deles nunca tinham pensado nessa possibilidade. “Como assim?”, perguntei.

“Eu não quero acreditar que vocês nunca pensaram em jogar fora do país ou em grandes clubes fora daqui! Não quero crer que nunca se imaginaram dando entrevistas em outros idiomas. É sério isso?!?!”

Eles olharam para mim como se eu estivesse falando de algo surreal.

É claro que um ou outro pode se tornar atleta profissional de grande desempenho, talvez nenhum. Mas eu notei que até para aquilo de que eles gostam, os sonhos são contidos, tímidos, moderados. E é aqui que o estudo da Carolina Delboni se encaixa.

Na minha observação e na de outros colegas, eles parecem mesmo não se projetar num futuro promissor. Parece que a vida é apenas uma sucessão de dias.

Aonde eu posso chegar?

Em uma outra fala da educadora, ela levanta a ideia da falta de estabilidade: “Num mundo com tanta instabilidade, quem oferece estabilidade ganha.”

Aonde esse jovem acredita que pode chegar quando se depara com carros populares custando mais de cem mil reais, imóveis modestos na casa dos quatrocentos mil? Como se manter num mundo onde trabalho não significa estabilidade financeira?

Ainda de acordo com Carolina, é muito importante recuperar uma palavra que parece ter envelhecido antes do tempo: utopia.

A juventude sempre carregou consigo o direito de imaginar o que ainda não existe. De querer mudar as coisas, de pensar diferente, de acreditar que o mundo pode ser outro. E quando um jovem deixa de sonhar, a utopia se perde.

Já nos perguntamos, com honestidade e sem culpa, que futuro estamos apresentando a eles? Como nossas atitudes e o ambiente ao redor influenciam nessa falta de perspectiva? Andei pensando nisso.

A reflexão não é para responsabilizar famílias, escolas ou os próprios jovens, mas para lembrar que educar também é ajudar alguém a construir uma relação possível com o amanhã.

Até a próxima.

 

Christiane Indaiá

Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce

Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)

Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam

Certificada Cambridge

Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas

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