Ela acorda cedo e segue uma rotina que inclui a polinização manual de 5 mil pés de maracujá em seu sítio, localizado no Assentamento Jonas Pinheiro, em Sorriso. A experiência da produtora rural Nasilene Costa dos Santos no cultivo da fruta está inspirando uma nova iniciativa da agricultura familiar em Mato Grosso. Em um intercâmbio promovido pela Associação Clube Amigos da Terra (CAT Sorriso), ela compartilhou conhecimentos sobre manejo e polinização manual com Joice Ferreira, agricultora de Boa Esperança do Norte, que começa a estruturar sua produção de maracujá.
As duas produtoras rurais se aproximaram após ingressarem no projeto Selo de Identificação de Origem da Agricultura Familiar – no Coração de Mato Grosso, iniciativa criada pelo CAT para valorizar a produção, incentivar boas práticas e fortalecer a agricultura familiar. A troca de experiências já apresenta resultados: Joice implantou suas primeiras 120 plantas de maracujá.
“Ela é a minha madrinha no cultivo do maracujá. Achei tão bonito da parte da Nasilene abrir as portas da propriedade para nós. Ela me indicou onde poderia comprar as sementes, mas, naquela época, não havia sementes disponíveis no mercado. Então, a Nasilene me deu os próprios frutos, e eu mesma retirei as sementes em casa e fiz as primeiras mudas.”
A propriedade de Joice fica no Assentamento Santa Rosa II, em Boa Esperança do Norte. Até então, o município não contava com produtores locais de maracujá, e a logística para transportar a fruta de outras localidades até a cidade era um desafio. A engenheira agrônoma Cristina Félix, que presta assistência técnica aos agricultores participantes do projeto do Selo, identificou a oportunidade e orientou a produtora.
“Sugeri à Joice que apostasse na cultura para diversificar sua produção, ampliar suas opções de venda na feira local e, futuramente, atender mercados institucionais importantes, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), fornecendo frutas para a merenda das escolas”, explicou a engenheira agrônoma.
O primeiro passo dessa troca de saberes foi uma visita técnica de Joice à propriedade de Nasilene, acompanhada pela engenheira agrônoma. Na ocasião, Nasilene compartilhou sua trajetória, desde os desafios enfrentados no início do cultivo do maracujazeiro até as técnicas de manejo adotadas atualmente.
“Foi uma experiência muito boa porque, às vezes, a pessoa quer produzir, mas tem medo. Então, ela veio até a minha propriedade para aprender e tirar dúvidas. É muito importante. Estimula a pessoa a querer implantar, inovar, a ter outra cultura no sítio”, destacou Nasilene. “Foi maravilhoso, é muito importante, tanto para mim quanto para ela, que quer inovar”, acrescentou.
“Você vê na prática o que a pessoa que já está na atividade faz, e é totalmente diferente. Às vezes, você vai conhecer um cultivo em outro estado, em outra região, diferente da sua. Não é a mesma realidade”, analisou Joice.
Excelência na produção da fruta
A agricultora Nasilene é uma referência regional no cultivo de maracujá. Em apenas 3 hectares, com 5 mil plantas, ela alcança uma produtividade estimada entre 75 e 100 toneladas da fruta por ano.
“Essa alta produtividade só é alcançada porque, na propriedade de Nasilene, todo o trabalho é rigorosamente manual. Desde a limpeza da terra e o plantio das mudas, passando pelo tutoramento, alinhamento e amarração dos fios para sustentar as ramas, e pelas podas estratégicas, que direcionam a energia da planta para os frutos”, explicou a engenheira agrônoma Cristina Félix. “O ápice dessa dedicação humana está na polinização manual, realizada de flor em flor no período da tarde, técnica que aumenta significativamente o pegamento dos frutos em comparação com a polinização natural”, concluiu.
A produtividade da propriedade também está relacionada ao acompanhamento técnico realizado pelo CAT. As visitas de campo permitem monitorar o desenvolvimento das plantas e identificar precocemente deficiências nutricionais e possíveis ocorrências de pragas e doenças. A orientação técnica é complementada pelo cumprimento dos cronogramas de manejo e das recomendações pela produtora. Essa integração contribui para a sanidade do pomar e a continuidade da produção ao longo do ano.
Nasilene e Joice fazem parte do grupo de 17 agricultores familiares que integram o projeto Selo de Identificação de Origem da Agricultura Familiar, criado pelo CAT e reconhecido pelo Ministério da Agricultura como parte do Programa de Promoção de Boas Práticas Agropecuárias.
“É nossa missão fortalecer o intercâmbio entre os produtores rurais participantes do projeto do Selo, estimular a troca de saberes, o uso da tecnologia e a adoção de boas práticas agrícolas. Tudo isso valoriza a produção local e contribui para a permanência das famílias no campo”, afirmou a CEO do CAT Sorriso, Cristina Delicato.
Sobre o CAT Sorriso
Fundado por produtores rurais, o Clube Amigos da Terra (CAT Sorriso) é uma associação sem fins lucrativos que há 24 anos trabalha para promover a evolução sustentável do agronegócio, por meio da inovação, da difusão de conhecimento e da adoção de práticas que conciliam produtividade e conservação ambiental.
Sua atuação abrange projetos de agricultura regenerativa, plantio direto, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e educação ambiental. A associação preza pela transparência de suas ações voltadas à preservação do meio ambiente, reconhecendo e valorizando a família do campo, construindo e consolidando trabalhos com resultados comprovados.

















