CUIABÁ
Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.
CUIABÁ
Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.
Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.
Slide anterior
Próximo slide
ÀS VÉSPERAS DO DIA DOS PAIS

“Ela matou uma família inteira”: Filha de verdureiro alega sensação de injustiça após condenação de 3 anos de médica

A poucos dias do Dia dos Pais, celebrado no próximo domingo (09) a decisão da Justiça reacendeu uma ausência que, segundo os familiares, nunca deixou de ser sentida

publicidade

A condenação da médica dermatologista Letícia Bortolini, oito anos após o atropelamento que matou o verdureiro Francisco Lúcio Maia, ganhou um significado ainda mais doloroso para a família da vítima. A poucos dias do Dia dos Pais, celebrado no próximo domingo (09) a decisão da Justiça reacendeu uma ausência que, segundo os familiares, nunca deixou de ser sentida.

Na última semana, a Justiça de Mato Grosso condenou Letícia a três anos e dois meses de detenção, em regime aberto, pelo atropelamento ocorrido em abril de 2018, na Avenida Miguel Sutil, em Cuiabá. O juiz Moacir Rogério Tortato reconheceu que ela dirigia sob efeito de álcool e a cerca de 101 km/h, em um trecho onde o limite era de 60 km/h. A pena foi substituída por medidas restritivas de direitos e a médica teve a CNH suspensa por quatro meses e 20 dias.

Para a filha de Francisco, Francivania Lúcio da Silva, a sentença representa uma profunda sensação de injustiça.

“São oito anos que a gente está lidando com a falta do meu pai. Oito anos convivendo com as lacunas que ele deixou, com a falta de um abraço, de um feliz aniversário, de pedir a bênção, de viver momentos simples que nunca mais vão acontecer”, desabafou.

“Meu pai era a nossa base”

Ao relembrar quem era Francisco Lúcio Maia, Francivania conta que o pai dedicou mais de duas décadas da vida ao trabalho em uma banca de verduras na região da Cidade Alta, em Cuiabá. Foi daquele pequeno comércio que saiu o sustento da família e a oportunidade de oferecer um futuro melhor aos três filhos.

Segundo ela, o pai trabalhava diariamente para garantir os estudos dos filhos e nunca deixou faltar o básico dentro de casa.

“Meu pai vendia verdura lá na Cidade Alta há mais de 20 anos. Dali saía o nosso ganha-pão, o nosso sustento. Foi dali que ele conseguiu dar estudo para a gente, tentar oferecer uma vida melhor. Meu pai era a nossa base, e isso ela tirou da gente.”

Francivania lembra que Francisco era um homem de personalidade tranquila, reservado e conhecido pelo jeito simples de viver.

“Ele era a pessoa mais tranquila que existia. Quieto, na dele, sempre sorridente. Você nunca sabia quando ele estava de mau humor, porque ele sorria com os olhos. Gostava de dançar, vivia a vida dele tranquilo.”

Leia Também:  Justiça aceita denúncia e motorista vai responder por morte de criança de 4 anos em Sorriso

Emocionada, ela afirma que ainda encontra dificuldade para falar sobre a perda.

“A gente está com uma dor e uma tristeza tão grandes que é difícil até explicar. Quanto mais a gente fala, mais machuca, mais fere.”

A banca continua aberta graças à filha

Após a morte de Francisco, a história construída por ele ao longo de mais de duas décadas não terminou. A banca de verduras continua funcionando na Cidade Alta, agora sob responsabilidade da filha Francinda, irmã de Francivania.

É ela quem mantém vivo o trabalho iniciado pelo pai e preserva o legado de um comerciante conhecido pela dedicação aos clientes e pelo esforço para sustentar a família.

A continuidade do ponto representa mais do que a manutenção da renda familiar. É também uma forma de manter viva a memória de Francisco, cuja rotina de trabalho foi interrompida de forma trágica na madrugada de 14 de abril de 2018.

“A vida do meu pai foi resumida a três anos”

A proximidade do Dia dos Pais tornou a decisão ainda mais difícil para a família. Enquanto a condenação foi anunciada, Francivania afirma que os familiares revivem, mais uma vez, a dor de enfrentar uma data comemorativa sem Francisco.

“A gente vai passar mais um Dia dos Pais sem ele. Enquanto isso, a vida do meu pai foi resumida a três anos de pena. Ela continua com a família dela, com o filho dela, trabalhando, atendendo pacientes, fazendo a vida normalmente. E a gente continua vivendo com esse vazio.”

Segundo ela, a condenação não representa o peso da perda sofrida.

“É uma verdadeira injustiça. Parece que a Justiça cuida mais de quem provocou o acidente do que da família que perdeu alguém.”

“Ela matou uma família inteira”

Em um dos momentos mais emocionantes do depoimento, Francivania afirmou que o atropelamento destruiu muito mais do que uma única vida.

“Eu queria dizer para a Letícia que ela não matou uma pessoa só. Ela matou uma família inteira. O buraco que ela causou no nosso coração não foi só pela morte do meu pai. Ela destruiu uma família.”

Leia Também:  Justiça nega bloqueio de R$ 15 milhões da Prefeitura de Cuiabá pedido pelo MP

A filha também afirmou esperar que a condenação faça a médica refletir sobre as consequências do acidente.

“Se ela realmente cumprir essa pena, que cada dia que ela precisar comparecer para cumprir alguma medida, ela sinta um pouquinho da dor que a gente sente há oito anos.”

Oito anos de espera

Francisco Lúcio Maia morreu na madrugada de 14 de abril de 2018, após ser atropelado por Letícia Bortolini, que retornava de um festival. Segundo a sentença, a médica dirigia embriagada, em alta velocidade, e deixou o local sem prestar socorro.

Inicialmente, o Ministério Público denunciou a médica por homicídio com dolo eventual, e ela chegou a ser pronunciada para julgamento pelo Tribunal do Júri. Posteriormente, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso desclassificou o caso para homicídio culposo na direção de veículo automotor, entendimento que resultou na condenação anunciada nesta semana.

Durante esses oito anos, Letícia respondeu ao processo em liberdade.

“Que Justiça é essa?”

Ao comentar a decisão, Francivania questionou a proporcionalidade da pena aplicada.

“Como um juiz leva oito anos para dar uma sentença e, no final, resume uma vida em três anos? O que vale a vida de uma pessoa hoje?”

Ela também relembrou que, desde o acidente, a médica nunca procurou a família.

“Ela nunca ligou para perguntar como a gente estava, nunca perguntou se precisava de ajuda, nem para saber se a gente tinha condições de fazer o velório. Enquanto isso, viveu normalmente.”

Mais um Dia dos Pais sem Francisco

No próximo domingo, enquanto milhares de famílias celebrarão a data ao lado dos pais, a família Maia enfrentará mais uma vez o vazio deixado por Francisco.

“O tempo passou, mas a dor não. A condenação não devolve meu pai e nem diminui a falta que ele faz. O que fica é esse sentimento de impotência, de que a vida dele valeu muito pouco para a Justiça.”

Para Francivania, a decisão encerra um processo judicial, mas jamais colocará fim ao luto.

“Para a Justiça foram três anos. Para nós, a pena é para o resto da vida”, finalizou.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

Slide anterior
Próximo slide

publicidade

publicidade