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FLÁVIO OU LULA: O VENCEDOR HERDARÁ O ÓDIO QUE A POLÍTICA PLANTOU

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No próximo dia 25 de outubro, o Brasil escolherá seu presidente. Seja Lula ou Flávio Bolsonaro, teremos um vencedor nas urnas, mas não necessariamente um país vencedor. A eleição terminará, porém o ódio, o ressentimento e as divisões alimentadas durante a campanha não desaparecerão com a divulgação do resultado. O mais preocupante é que quem assumir o poder terá de administrar as consequências de uma guerra política que as próprias lideranças ajudaram a alimentar.

Se Flávio vencer, poderá contar com um Congresso mais favorável ao seu campo político. Se Lula conquistar a vitória, também terá de enfrentar uma sociedade profundamente dividida e negociar com forças parlamentares divergentes. Em qualquer cenário, a matemática eleitoral não resolverá a fratura social. Ganhar a Presidência não significa conquistar a confiança daqueles que votaram contra o vencedor.

A Psicologia Social explica esse fenômeno pela polarização afetiva. O cidadão deixa de enxergar o adversário como alguém que pensa diferente e passa a tratá-lo como inimigo. A identidade política transforma-se numa espécie de identidade moral: os nossos são sempre bons; os outros, necessariamente maus. Nesse ambiente, o ódio não desaparece com a derrota ou a vitória. Pelo contrário, pode alimentar sentimentos de vingança entre vencedores e de revolta entre derrotados.

Na Filosofia, Friedrich Nietzsche ajuda a compreender como o ressentimento pode orientar comportamentos coletivos. Na política brasileira, a exploração da raiva tornou-se uma ferramenta de mobilização. Atacar passou a produzir mais repercussão que propor, e destruir reputações parece render mais dividendos eleitorais que discutir os problemas nacionais.

A Ciência Política demonstra que vencer eleições e construir legitimidade democrática são desafios distintos. Um governo pode conquistar maioria no Congresso e continuar enfrentando intensa rejeição social. Afinal, votos garantem o mandato, mas não asseguram confiança, respeito ou estabilidade política.

As redes sociais agravaram esse cenário. Transformaram agressões em espetáculo, intolerância em militância e humilhações em demonstrações de fidelidade política. Muitos cidadãos passaram a reproduzir comportamentos estimulados ou tolerados por suas próprias lideranças.

E agora vem a conta.

Se Lula vencer, o ódio continuará produzindo suas consequências. Se Flávio vencer, também. Não existe ódio democrático ou conservador, progressista ou de direita, que seja socialmente inofensivo. Seus efeitos são semelhantes: famílias divididas, amizades destruídas, instituições desacreditadas e uma sociedade emocionalmente adoecida.

Hannah Arendt compreendia a política como espaço de convivência entre diferentes. Quando o adversário passa a ser tratado como inimigo, desaparece a disposição para construir soluções coletivas.

O próximo presidente terá uma responsabilidade que ultrapassa a administração pública: demonstrar, por atitudes concretas, que é possível governar sem transformar metade do país em inimiga.

O Brasil não precisa que todos pensem igualmente. Precisa que as diferenças deixem de justificar o ódio.

Flávio ou Lula, pouco importa para essa constatação: quem vencer receberá a faixa presidencial, mas também herdará uma sociedade ferida. E a maior contradição será exigir que os brasileiros abandonem um ódio que parte de suas lideranças utilizou como instrumento de conquista do poder.

A eleição produzirá um vencedor. A continuidade do ódio poderá fazer de todos nós os derrotados.

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