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CHRISTIANE INDAIÁ

A infância entrou na internet. E os adultos?

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Imagine uma menina de 13 anos em casa.

Talvez seja noite. Talvez os adultos estejam por perto. Talvez alguém tenha perguntado, poucas horas antes, se ela já havia feito a tarefa, tomado banho ou jantado.

Ela está diante de uma tela.

Do outro lado, há pessoas que ela conhece apenas por uma voz, um nome de usuário, uma fotografia ou um personagem. Pessoas que entraram na sua rotina digital aos poucos. Primeiro, uma conversa, depois uma brincadeira e, em seguida, confiança.

O que acontece naquele espaço não precisa ser visto por ninguém dentro daquela casa.

Até que, em determinado momento, aquela tela deixa de ser apenas uma tela.

No dia 22 de julho, uma adolescente de 13 anos morreu em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, depois de ser submetida, segundo as investigações, a uma sequência de manipulações e desafios de violência dentro de um grupo virtual. Parte do episódio foi transmitida ao vivo pelo Discord por cerca de 45 minutos. A Polícia Civil e órgãos federais investigam o caso.

É difícil imaginar 45 minutos quando pensamos neles como uma unidade de tempo.

Quarenta e cinco minutos são uma aula. São o tempo de uma reunião, de um treino, de um episódio de série.

São tempo suficiente para um adulto entrar no quarto de um adolescente, perguntar o que ele está fazendo, sentar ao lado dele e conversar.

Mas, naquele caso, durante 45 minutos, uma menina estava em uma transmissão que, segundo as investigações, envolvia pessoas que a manipulavam e a submetiam a situações cada vez mais violentas.

A pergunta mais incômoda não é como aquelas pessoas conseguiram chegar até ela, mas como um ambiente capaz de colocar uma criança diante de uma situação tão extrema conseguiu permanecer tão distante dos adultos que deveriam protegê-la?

A pergunta não é simples. E justamente por isso não pode ser respondida apenas com “os pais precisam vigiar mais”.

O problema é maior. Muito maior.

Durante muito tempo, nós aprendemos a imaginar os perigos da infância como algo que estava do lado de fora. Nossos pais diziam para não falar com estranhos quando estivéssemos na rua.

Íamos sós para a escola, nos perguntavam com quem havíamos brincado, conversado. O perigo tinha endereço, rosto, espaço físico.

Então chegou o celular e, com ele, uma transformação silenciosa na infância: o mundo inteiro passou a caber dentro do quarto que deixou de ser um lugar seguro.

O estranho não precisa mais estar na rua; ele pode estar dentro de um servidor privado e se apresentar como amigo. Não precisa conquistar confiança em uma única conversa. Ele passa dias, semanas ou meses construindo pertencimento.

E é justamente essa capacidade de criar vínculos que torna determinados ambientes digitais tão delicados para crianças e adolescentes.

A investigação do caso que ficou conhecido como Operação Lívia aponta que o grupo envolvido procurava adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional, conquistava sua confiança e depois recorria a isolamento, humilhação e coerção.

Não estamos falando, portanto, apenas de uma criança que “entrou em um aplicativo perigoso”.

Estamos falando de relações humanas construídas em um ambiente no qual os adultos também não sabem quem está do outro lado da tela.

Discord não está sozinho nessa história

Enquanto o Brasil ainda tenta compreender o que aconteceu com essa menina, do outro lado do continente outra discussão coloca as grandes plataformas digitais no centro de um tribunal.

Nesta semana, começou nos Estados Unidos um julgamento histórico contra a Meta.

A empresa é acusada de ter desenvolvido recursos do Facebook e do Instagram de maneira a estimular o uso compulsivo por crianças e adolescentes e de ter falhado em medidas de proteção aos menores. Entre os mecanismos questionados estão recursos como rolagem infinita, curtidas e estratégias destinadas a prolongar o engajamento. A Meta nega as acusações e afirma que suas plataformas possuem ferramentas de segurança e controle para usuários jovens.

O julgamento ganhou ainda mais força nesta quarta-feira, quando o ex-executivo da Meta Arturo Béjar depôs e afirmou que a empresa teria recebido alertas sobre problemas envolvendo adolescentes e que as ferramentas de proteção existentes eram insuficientes.

São dois acontecimentos diferentes: um envolve uma adolescente que morreu depois de uma sequência de abusos em um ambiente virtual.

O outro discute, nos Estados Unidos, se uma das maiores empresas de tecnologia do mundo criou mecanismos capazes de manter crianças e adolescentes conectados por mais tempo, apesar dos riscos apontados.

Mas quem é responsável por proteger uma criança quando o ambiente em que ela está inserida foi criado por adultos, administrado por empresas e, muitas vezes, compreendido muito pouco pelos próprios adultos que cuidam dela?

Não podemos entregar um celular e chamar isso de autonomia.

Queremos filhos autônomos e devemos querer. Queremos adolescentes capazes de tomar decisões, estabelecer limites, reconhecer riscos e fazer escolhas. Mas autonomia não nasce quando o adulto simplesmente se afasta. Autonomia é uma habilidade construída com acompanhamento.

Uma criança não aprende a atravessar uma avenida sendo colocada sozinha no meio do trânsito.

Ela primeiro segura a mão de alguém, aprende a olhar para os dois lados, aprende a reconhecer o sinal, aprende a calcular distância. Até que, pouco a pouco, consegue atravessar sozinha.

Por que imaginamos que deveria ser diferente na internet?

Por que entregamos a uma criança uma ferramenta que permite conversar com desconhecidos, participar de comunidades privadas, receber conteúdos de qualquer parte do mundo e estabelecer vínculos com pessoas cuja identidade sequer conhecemos e acreditamos que bastará dizer: “Se acontecer alguma coisa, me chama”?

Será que ela sabe reconhecer quando alguma coisa começou a acontecer? Será que sabe diferenciar amizade de manipulação? Será que entende quando alguém está testando seus limites? Será que sabe que uma pessoa que pede segredo pode estar justamente tentando afastá-la das pessoas que poderiam protegê-la?

Essas coisas também precisam ser ensinadas.

É importante que plataformas sejam responsabilizadas, que existam leis, que haja fiscalização, que empresas sejam obrigadas a construir ambientes mais seguros.

Mas existe uma responsabilidade que nenhuma legislação consegue substituir: a responsabilidade de educar.

Precisamos conhecer o território onde nossos filhos estão crescendo. Os adultos da nossa geração estão diante de uma tarefa inédita.

Não basta perguntar: “Quanto tempo você ficou no celular?”

Precisamos saber com quem conversam, de que tipo de comunidades participam, se alguém já pediu para guardar segredo, se alguma pessoa já o fez sentir-se culpado para conseguir alguma coisa.

E, principalmente, nossos filhos precisam saber que, se alguma coisa acontecer, eles podem nos contar sem medo de serem imediatamente retaliados e punidos.

Crianças e adolescentes que temem a reação dos adultos podem esconder justamente aquilo que mais precisa ser visto.

A infância entrou na internet e nós ainda estamos aprendendo a acompanhá-la.

Precisamos entrar nesse território. Não necessariamente para controlar cada conversa, mas para estar presentes. Nossos filhos não precisam apenas de adultos que saibam configurar o controle parental, precisam de adultos que saibam conversar sobre manipulação e relações abusivas.

Precisam saber que podem pedir ajuda e precisam saber que, quando pedirem, encontrarão um adulto disposto a ouvir antes de julgar.

O caso da adolescente de 13 anos nos obriga a olhar para uma realidade que gostaríamos que não existisse.

O julgamento da Meta nos obriga a perguntar se os ambientes digitais que oferecemos às crianças foram realmente pensados para protegê-las, ou se, em alguns casos, foram pensados para mantê-las conectadas.

E nós, adultos, precisamos assumir nossa parte nessa conversa.

Fontes: Reuters
AP News
Agência Brasil

Christiane Indaiá
Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura – UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas

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