A investigação sobre a morte de Alessandro Sidinei Braga, de 38 anos, dentro da Clínica Terapêutica Pró Vida, no bairro Jardim Primavera, em Cuiabá, avançou após o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) denunciar o plantonista Odiley Rodrigues de Souza por homicídio triplamente qualificado, tortura e fraude processual.
Alessandro, que era dependente químico e diagnosticado com esquizofrenia, estava internado na unidade para tratamento quando morreu, em maio deste ano. Inicialmente, o caso foi apresentado pelos responsáveis pela clínica como um suicídio por enforcamento, mas a versão foi descartada pela perícia, que encontrou inconsistências na cena e apontou sinais de contenção física.
Preso pela Polícia Civil, Odiley admitiu em depoimento que participou da contenção da vítima horas antes da morte. Segundo ele, Alessandro apresentou comportamento agressivo durante a madrugada e precisou ser imobilizado. O plantonista afirmou que utilizou uma corda para amarrar o paciente e negou ter colocado qualquer objeto em seu pescoço.
A versão, porém, diverge da conclusão do Ministério Público. Conforme a denúncia assinada pela promotora de Justiça Élide Manzini de Campos, o acusado teria submetido Alessandro a agressões físicas, incluindo tapas, chutes e manobras de estrangulamento durante as tentativas de contenção.
Segundo a investigação, após apresentar novo episódio de agitação por volta das 3h, Alessandro teria sido novamente imobilizado pelo plantonista, com os braços amarrados para trás. A denúncia aponta que, já sem possibilidade de reação, a vítima foi morta por estrangulamento com um cinto.
O laudo de necropsia indicou que a causa da morte foi o estrangulamento, que provocou uma grave lesão interna na região do pescoço. Para o MPMT, o crime foi cometido com três qualificadoras: motivo fútil, uso de meio que dificultou a defesa da vítima e emprego de asfixia.
A promotoria também acusa Odiley de tentar alterar a cena do crime para sustentar a hipótese de suicídio. Conforme a denúncia, o plantonista teria informado aos funcionários da clínica que encontrou Alessandro em uma situação compatível com enforcamento, mas a perícia identificou alterações no local e vestígios incompatíveis com essa versão.
Além da morte de Alessandro, a investigação revelou possíveis irregularidades no funcionamento da clínica. O MPMT afirma que pacientes com transtornos psiquiátricos e comportamento considerado mais agitado eram mantidos trancados durante a noite em um cômodo chamado “quartão”, cuja chave ficava sob responsabilidade do plantonista.
Outro ponto investigado é a participação de internos em atividades de monitoramento e auxílio aos funcionários durante procedimentos de contenção. Segundo a denúncia, outros pacientes teriam presenciado as agressões e auxiliado nas imobilizações.
A Vigilância Sanitária também identificou 60 irregularidades no estabelecimento, incluindo falhas estruturais, falta de profissionais adequados e condições consideradas inadequadas para garantir a segurança e o atendimento dos internos.
Odiley Rodrigues de Souza permanece preso na Penitenciária Central do Estado (PCE). A denúncia agora será analisada pela Justiça, enquanto a Polícia Civil segue com as investigações para esclarecer todos os envolvidos no caso.




















