A tragédia causada pelos dois fortes terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira (24) ultrapassou as fronteiras do país e provocou desespero entre milhares de venezuelanos espalhados pelo mundo. Em Cuiabá, o venezuelano Manuel Alejandro Cedeño Ugas, de 34 anos, acompanha com apreensão as notícias sobre a destruição e tenta, a todo custo, obter informações sobre familiares que vivem nas áreas mais afetadas.
Morando na capital mato-grossense há cinco anos, Manuel tem parentes em La Guaira, no estado Vargas, e em Caracas, cidades separadas por cerca de 30 minutos de distância e que foram diretamente impactadas pelos tremores.
Desde que soube da tragédia, ele e o pai iniciaram uma verdadeira força-tarefa para localizar os familiares.
“Estou tentando contato pelo grupo da família, de forma privada, e meu pai também está tentando se comunicar com várias pessoas, mas ainda não sabemos de muitos deles”, relata.
Entre as poucas notícias recebidas, uma trouxe alívio parcial. Um primo que estava desaparecido conseguiu fazer contato e informou que ele e a mãe estão bem. No entanto, o irmão dele, Carlos Daniel, de 26 anos, morador de La Guaira, continua desaparecido.
“Sabemos que ele ainda não fez contato e não temos nenhuma informação sobre onde está”, conta Manuel.
A situação dos parentes é dramática. Segundo ele, familiares precisaram abandonar suas casas e buscar abrigo na residência de uma tia em Caracas.
“Eles estão se refugiando lá porque as casas tiveram perda total”, afirma.
O drama vivido atualmente traz à memória uma experiência que o próprio Manuel enfrentou antes de deixar a Venezuela. Em 2018, apenas uma semana antes de emigrar, ele presenciou outro terremoto de grande magnitude.
“Também foi um terremoto de 7.0, mas o epicentro foi diferente e não houve perdas mortais naquela região. Eu morava em Maturín, no estado Monagas, perto de onde ocorreu aquele tremor”, relembra.
A destruição provocada pelos abalos desta semana reacendeu antigas feridas em um país que já enfrenta décadas de dificuldades econômicas e sociais. Ao falar sobre o sofrimento do povo venezuelano, Manuel não consegue esconder a emoção.
“Estou muito triste. Acho que já temos muito sofrimento por tudo o que está acontecendo lá há mais de 20 anos. Agora, quando começávamos a ver um pouco de luz, a natureza volta a golpear de forma súbita e sem previsão. A morte dessas pessoas e o desaparecimento de tantas outras lembram muito o desastre de Vargas, em 1999”, lamenta.
Rede de solidariedade busca localizar desaparecidos
Mesmo distante da Venezuela, Manuel decidiu transformar a angústia em mobilização. Ele faz parte de um grupo formado por venezuelanos que vivem em diferentes regiões do Brasil e em outros países, criado para compartilhar informações sobre vítimas, desaparecidos e sobreviventes do terremoto.
A iniciativa funciona como uma rede colaborativa de apoio, reunindo relatos de familiares, atualizações sobre resgates e contatos de pessoas que conseguem se comunicar com as áreas afetadas. O objetivo é ajudar famílias que ainda buscam notícias de parentes e facilitar o cruzamento de informações em meio às dificuldades de comunicação provocadas pela tragédia.
“Estamos organizando uma rede de apoio para trocar informações e ver se a comunicação entre as pessoas pode ajudar a encontrar quem ainda está desaparecido”, explica Manuel.
Para ele, a solidariedade entre os venezuelanos tem sido fundamental neste momento de incerteza, quando centenas de famílias ainda aguardam notícias de entes queridos nas regiões devastadas pelos tremores.

O desastre
Os terremotos registrados na quarta-feira foram considerados os mais fortes a atingir a Venezuela em mais de um século. O primeiro tremor teve magnitude 7,2, seguido por outro de 7,5 apenas 40 segundos depois.
De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), apenas um terremoto registrado em 1900, de magnitude 7,7, superou os abalos desta semana na história do país. O epicentro dos tremores foi localizado próximo às cidades de Yumare e San Felipe, no norte venezuelano.
Os abalos provocaram o colapso de edifícios, danos severos à infraestrutura e chegaram a gerar um alerta de tsunami para áreas costeiras próximas ao epicentro, posteriormente cancelado.
Até o momento, o balanço divulgado pelas autoridades aponta pelo menos 164 mortos e quase mil feridos. O USGS emitiu alerta vermelho e estima que o número de vítimas possa crescer significativamente nos próximos dias, à medida que equipes de resgate avançam nas áreas devastadas.




















