Ela não parece perigosa, e talvez seja exatamente por isso que ela seja.
Agora responda: qual classificação etária você daria para tal conteúdo?
Convido você a pensar nessas tramas embaladas em forma de frutas e com aparência lúdica, quase um desenho animado. Não faz sentido, né?
Se você, pai ou mãe, não ficar atento, vai pensar que se trata mesmo de conteúdo infantil.
Para nossa surpresa, Moranguete, Abacatudo, Bananildo e outros personagens nada pueris fazem parte de um elenco que está na boca e no imaginário da garotada. São musculosos, sensuais e despertam o desejo erótico.
Há cenas de sexo, violência e apologia ao crime, tudo isso sugerido pelas próprias plataformas digitais aos nossos filhos. Se você perguntar para sua criança de 10 anos, ou até menos, ela muito provavelmente saberá do que se trata, mesmo que não tenha maturidade suficiente para entender claramente o que se passa nessas cenas.
Os diálogos são outra preocupação: de falas machistas, passando por gordofobia e homofobia, tem de tudo.
Nem preciso dizer que, do fundamental II em diante, a coisa fica ainda mais “empolgante”.
Os enredos são tão absurdos que a “trend” das frutas virou alvo de investigação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), após denúncia realizada em abril deste ano por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA).
De acordo com os órgãos, esses conteúdos ferem os artigos do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que as protege em ambientes digitais.
As instituições e o CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) afirmam que a “novelinha das frutas” produz efeitos preocupantes sobre crianças e adolescentes, visto que estes estão em fase de desenvolvimento socioemocional e, portanto, não estão totalmente aptos a acompanhar esses conteúdos com responsabilidade.
“Eles são frequentemente impulsionados por algoritmos de recomendação, ampliando a exposição. Isso agrava os riscos e evidencia que não se trata apenas de um problema de conteúdo, mas também da forma como ele é disseminado”, declarou Fábio Meirelles, diretor de Proteção da Criança e do Adolescente da SNDCA.
Hype total
O fenômeno furou a bolha do entretenimento e mobilizou grandes marcas. No domingo, 5 de abril de 2026, o perfil oficial do Flamengo surfou na onda após a vitória sobre o Santos, mas não foi o único.
Empresas como Carrefour e Burger King, além da Prefeitura de Salvador, também aproveitaram o engajamento das frutas para interagir com o público nas redes sociais.
Influenciadores digitais seguem a mesma linha e já produzem versões “live-action” das tramas, pintando os próprios rostos e encenando os diálogos mais virais das animações.
Percebo um movimento em que não há preocupação com a divulgação do conteúdo ou com a associação da própria imagem a ele, desde que isso signifique engajamento, mesmo que os temas sejam violentos, abusivos e preconceituosos.
A novelinha não é apenas mais uma modinha boba da internet, mas algo que exige presença, diálogo e vigilância consciente.
Talvez o maior perigo não esteja apenas nas cenas absurdas ou nas falas problemáticas, mas na facilidade com que tudo isso entra silenciosamente dentro de casa, disfarçado de humor, animação e entretenimento inocente.
Enquanto os algoritmos trabalham para prender a atenção das crianças, cabe aos adultos fazer aquilo que nenhuma plataforma fará: acompanhar, conversar, orientar e proteger.
Queridos pais, nem tudo que parece infantil foi feito para crianças. Pensem nisso.
Fontes: O Tempo | G1 | MDHC
Christiane Indaiá Graduada em Letras — Português, Inglês e Literatura pela UNIVALE (Universidade Vale do Rio Doce) Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II) Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam Certificada Cambridge Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas




















